Esse texto não é a respeito de uma brincadeira específica, mas sobre um elemento presente em muitos jogos: o passe. O passe é super importante pois é através dele que jogadores do mesmo time interagem uns com os outros no jogo e exemplifica de maneira simples a interação dos indivíduos em outras situações fora da quadra.
A minha experiência com dinâmicas de passe tem sido muito bem sucedida. Percebo que elas têm encorajado as crianças a reconhecerem o valor no outro, ensinado líderes a servir, incluído os mais tímidos, unido o grupo e combatido o individualismo.
Nesse texto darei três exemplos de dinâmicas de passe em futebol que colaboraram para ajudar as crianças a se desenvolverem socialmente – espero que elas sirvam de inspiração:
A. Trabalhar com atividade física com fins cristãos é diferente de trabalhar com atividade física almejando alta performance. Tendo isso em mente, uma das coisas que mais me incomoda são aqueles jogos em que 25% dos alunos ficam 75% do tempo com a bola e o restante da turma é praticamente excluído da atividade. O simples comando “Passa essa bola!” não resolve. As seguintes dinâmicas ajudam:
1. Quanto maior a habilidade ou “fome” da criança, menos toques ela pode dar na bola (antes de passá-la). O mais habilidoso só pode dar um toque, o segundo mais habilidoso dois toques e assim por diante.
2. Divida o campo em seções e faça com que elas sejam ocupadas por diferentes jogadores sendo que estes só podem jogar na seção que lhes foi atribuída. Há várias possibilidades para essa dinâmica: dividir o campo em ataque, meio-campo e defesa ou apenas dividir em meio e laterais (colocando os melhores jogadores nas laterais).
Ambas dinâmicas fizeram com que aumentasse muito a participação dos menos habilidosos. As variações que gosto mais são aquelas que deixam o time dependente dos menos habilidosos para marcar os gols. No começo os habilidosos podem reclamar, mas acabam entendendo (com sua ajuda ou não) que devem cooperar se desejam ganhar a partida. Os fominhas servem o time e passam a bola, os descoordenados fazem gols, saem como heróis e aumentam a auto-confiança.
B. A velha rivalidade mundial entre meninos e meninas é muito mais acirrada na região que estou. O sexo oposto é quase visto como um estranho inimigo durante todos os anos escolares. Essa estranheza faz com que seja ainda mais difícil para que homens e mulheres (maridos e esposas) cooperem uns com os outros quando se tornam adultos e alguns atribuem a tal fênomeno um alto índice de homossexualismo na região.
Pra mim, fazer com que meninos e meninas cooperassem num jogo de futebol era um começo importante e desafiador. Quando comecei a dar aulas, eles não se davam as mãos e expressavam nojo só de pensar na idéia, meninos viviam xingando e culpando meninas que, por sua vez, não queriam participar de brincadeira nenhuma.
3. Implantei a simples e eficaz regra: “Meninos só podem passar pra meninas, meninas só podem passar pra meninos – o oposto é falta para o time adversário”. Dinâmicas semelhates podem servir para misturar a panelinhas no grupo. A respeito disso, sou da opinião de que o instrutor deve escolher os times na maioria das atividades e os times devem ser o mais mesclados. Além disso, o instrutor pode dar ordens como: “No time vermelho Jair, Chupão e Privada não podem passar a bola uns pros outros. A mesma coisa pra Chorinho, Caneco e Fabiano do time azul.”
Resultados: Tenho percebido que as turmas com que tenho trabalhado estão muito mais unidas. Mesmo no recreio, o círculo social e as brincadeiras são muito mais abrangentes, os líderes mais inclusivos e os tímidos mais participantes das atividades. Também é um prêmio ver meninos e meninas colaborando de maneira eficaz e se encorajando nas turmas com que trabalho – o futuro é cada vez mais mostrando como tais princípios valem para fora das quatro linhas.
Logicamente regras assim não são bem recebidas, mas paciência e atitude inquebrável fazem com que as crianças obedeçam. Ao começar a implantar essas dinâmicas você verá muitos jogadores reclamando dos outros: “Professor, não dá pra passar a bola pra ele, ele é muito ruim!” Um baixo nível de reclamação é normal, mas não deixe isso desencorajar os menos habilidosos. Puna reclamações desse tipo com cartões amarelos (avisos) e vermelhos (de 5 a 10 minutos fora do jogo).
Elogie muito os mais habilidosos quando eles passarem a bola e elogie os menos habilidosos ao tentarem participar do jogo. Eu faço minhas narrações: “Passe sensacional de Jager! Surge um gêêênio das assistêêências, um novo Ronnnaaaaldinho!” ou “Blind ‘Canavaro’ tiiiiira a bola pra fora numa jogada sensacionaaaaalllllll!” E depois do jogo converso com as crianças e sempre elogio o progresso de cada uma.
É isso aí pe-pessoal.
P.s.: Aliás, se você lê o blog e trampa com crianças, por favor poste (nos comentários?) idéias para jogos dentro de sala de aula. Preciso de idéias!